
Em março de 2026, o Conselho Municipal de Cultura de Santo André se reuniu para tratar de temas que, na prática, definem quem participa das decisões, quem circula pelo Brasil em nome da cidade e como os recursos da cultura são usados. No centro da conversa: a PNAB, a participação na Teia Nacional dos Pontos de Cultura e o funcionamento de escolas e equipamentos culturais.

🧾 Atas: registrar só o “bonito” ou contar o que realmente aconteceu?
Logo no começo da reunião, surgiu um ponto que diz muito sobre como a política cultural é registrada na cidade: a discussão sobre a ata de uma reunião ampliada anterior.
O problema não era de forma, mas de conteúdo:
o documento trazia apenas o que foi apresentado e aprovado,
mas deixava de fora as críticas, as falhas de divulgação e as tensões que marcaram o debate sobre a PNAB naquela ocasião.
A saída encontrada foi:
não aprovar a ata naquele formato;
construir um memorial complementar, usando a gravação da reunião, para recuperar o que de fato foi dito e pensado, e só então levar o texto à aprovação novamente.
Isso muda a régua de qualidade: atas deixam de ser “resumo bonitinho” e passam a ser tratadas como memória de processo. Em uma cidade que lida com recursos federais, planos e editais, esse detalhe faz diferença.

💸 PNAB e Teia: quem esse dinheiro coloca no avião?
O tema que mais chama atenção para quem está de fora é este: quem Santo André vai mandar para a Teia Nacional dos Pontos de Cultura usando verba da PNAB?
O que é PNAB?
A Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) é uma lei federal que garante repasses regulares de dinheiro da União para estados e municípios investirem em cultura.
Ela foi criada para que ações culturais não dependam apenas de editais pontuais, mas tenham base contínua de financiamento.
E o que é a Teia Nacional?
A Teia é um encontro nacional dos Pontos de Cultura, com rodas de conversa, oficinas, articulações e trocas entre experiências de todo o país.
Em 2026, ela acontece em maio, no Espírito Santo.
O que Santo André decidiu fazer com a PNAB?
Na reunião, foi explicado que:
o município reservou uma parte dos recursos da PNAB especificamente para custear a participação de Santo André na Teia;
essa reserva inclui custos de passagens, hospedagem, alimentação e transporte local;
os valores por pessoa não são baixos e as passagens aumentam de preço com o passar do tempo, o que pressiona o calendário de decisão;
normas nacionais permitem usar até uma fatia dos recursos para fóruns e teias, e no caso de Santo André essa linha foi reforçada com 25% de recursos próprios do município.
Onde está a disputa?
A pergunta central que apareceu na reunião pode ser resumida assim:
Quem a cidade deve priorizar com esse dinheiro: representantes da sociedade civil ou também do poder público?
De um lado, aparece a visão de que:
a PNAB e a Cultura Viva nasceram da mobilização de grupos culturais,
faz bastante sentido que essa verba seja usada prioritariamente para ampliar a presença da sociedade civil na Teia – pontos de cultura, coletivos e lideranças de base.
De outro, foi lembrado que:
o plano de uso da PNAB em Santo André foi construído com participação,
e que o texto da rubrica destinada à Teia não faz distinção explícita entre “poder público” e “sociedade civil” – abrindo espaço para uma leitura que inclui representantes institucionais na delegação.
Além disso, o argumento da gestão é que a presença do município também é importante em um encontro nacional, seja para articular políticas, seja para representar o território no diálogo com o governo federal.
O que ficou encaminhado?
Ao final desse tramo, a decisão foi não “bater o martelo” só dentro do conselho:
será realizada uma reunião específica com os Pontos de Cultura de Santo André,
para discutir quem vai à Teia e como a verba PNAB será usada nessa viagem.
Na prática, a pergunta “quem esse dinheiro coloca no avião?” será respondida com a participação de quem está na base da política – o que aproxima essa decisão do espírito original da Cultura Viva.

🏫 Escolas Livres: quem tem voz na hora de decidir o que é ensinado?
Outro debate importante do encontro foi sobre as Escolas Livres e a EMIA, que têm papel central na formação cultural da cidade.
O ponto levantado foi que:
decisões recentes sobre editais e rumos pedagógicos foram percebidas como tomadas “de cima para baixo”,
sem a participação adequada de quem está nas escolas no dia a dia – estudantes, famílias e comunidade.
Aqui, entra em cena um elemento que já existe no papel:
- o Plano Municipal de Cultura de Santo André prevê a criação de conselhos gestores nos equipamentos culturais, justamente para fazer essa ponte permanente entre gestão e público.
Na reunião, ficou combinado um caminho em duas etapas:
Conversar com as coordenações das escolas para mapear como estão hoje os projetos político-pedagógicos (os planos que orientam o que e como se ensina).
Criar momentos específicos com os usuários das escolas – estudantes, responsáveis, comunidade – para discutir o que faz sentido manter, mudar ou incluir nesses projetos.
Além disso, foi falado em organizar um cronograma de revisão, para que esse processo possa ser acompanhado por quem se interessa pelo tema.
O recado é simples: a formação cultural em Santo André tende a funcionar melhor quando quem vive a escola também participa das decisões sobre ela.

📊 Planejamento da Secretaria: marcar reunião pra quê?
A reunião também tinha na pauta o planejamento da Secretaria de Cultura: calendário de ações, uso de recursos, prioridades para o ano.
Como a área responsável não pôde apresentar o material naquele momento, foi tomada uma decisão importante:
em vez de tratar o tema “no improviso”, será feita uma reunião extraordinária ampliada e presencial no dia 14 de abril,
com foco exclusivo em planejamento, incluindo datas, valores, ações e responsáveis.
A ideia colocada foi clara:
- se não houver informação concreta, não vale a pena fazer uma reunião só para ouvir fala genérica.
Isso reforça um papel mais ativo do Conselho: em vez de apenas ouvir apresentações, passa a cobrar planejamento com números e prazos, algo que é essencial para acompanhar a aplicação da PNAB e de outras políticas culturais.
🏛️ Casas da Palavra e do Olhar: mais abertura, menos mistério
A reunião ainda trouxe um panorama das Casas da Palavra e do Olhar, dois equipamentos importantes de Santo André.

Casa da Palavra 📚
Na conversa, apareceram preocupações como:
clareza sobre orçamento e gestão,
atrasos em pagamentos de artistas,
e segurança no entorno, especialmente à noite.
Também foi informado que:
a Casa da Palavra seguirá abrindo à noite em dias de atividades na Concha Acústica, reforçando a vida cultural no centro da cidade;
novos encontros estão sendo organizados para aprofundar o diálogo com quem acompanha e usa o espaço.

Casa do Olhar 👀
Já a Casa do Olhar, que trabalha com arquitetura, cidade e cidadania, vem:
ampliando visitas monitoradas com escolas, aproximando crianças e jovens do espaço;
mas ainda enfrenta relatos de dificuldade de acesso de artistas, que não sabem claramente como propor exposições ou atividades.
Uma nova reunião foi marcada para 20 de abril, justamente para discutir melhor como organizar essa relação com o público e tornar os caminhos mais visíveis.
Esses movimentos dialogam com uma ideia simples: casas de cultura funcionam melhor quando não são “caixas-pretas”, mas espaços em que o público sabe como acessar, sugerir e circular.

📣 Comunicação e registros: reunião sem rastro é reunião perdida
Por fim, surgiu um problema que vale para qualquer conselho:
- nem todas as pessoas envolvidas estavam recebendo atas e relatos de reuniões anteriores.
Isso impacta diretamente quem quer acompanhar:
sem registro acessível, fica difícil saber o que foi decidido;
sem histórico, não dá para cobrar se um encaminhamento foi ou não cumprido.
Foi reforçada a necessidade de:
usar redes sociais e grupos de WhatsApp para convocar e avisar de reuniões;
e manter documentos oficiais disponíveis em canais públicos, como o CulturAZ e outras páginas oficiais de cultura.

✊ E o que tudo isso tem a ver com você?
No fim, a resposta à pergunta do título – “quem vai na Teia com o dinheiro da cultura de Santo André?” – não deveria ser definida só em planilha ou em corredor de secretaria.
Ela passa por algo maior: quem está sentado à mesa quando a cidade decide seus rumos culturais.
Se atas registram o que de fato aconteceu, se o uso da PNAB é debatido com os Pontos de Cultura, se escolas e casas abrem espaço para escuta real, a cultura deixa de ser só programação pronta e vira projeto coletivo de cidade.
📣 Como você pode entrar nessa conversa
Se você faz parte de algum coletivo, ponto de cultura ou grupo artístico, acompanhe as chamadas para a reunião dos Pontos de Cultura: é ali que a delegação da Teia será debatida.
Se você é usuário das Escolas Livres ou da EMIA, fique de olho nas convocações sobre revisão dos projetos pedagógicos – sua experiência conta.
Se você só ama cultura na cidade, siga os canais oficiais e participe das reuniões ampliadas quando puder: presença e pergunta simples (“como foi decidido isso?”) mudam o ambiente.
Cultura não é só show na praça: é também quem decide, com que dinheiro e com qual prioridade.
E isso, em Santo André, está sendo escrito agora.
Antes de decidir quem vai representar Santo André na Teia, vale lembrar: cuidar da cultura também passa por cuidar da nossa presença digital.
Se você atua em coletivos, pontos de cultura ou projetos independentes, sua segurança online faz diferença para a continuidade do seu trabalho.
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Boletim Cultura Integrada
Produção: Rede Integrativa
Parceria: Rádio Zummm FM
Autor: Ricardo Molina
Informação, cultura e território conectados.